Coisas minhas.

quinta-feira, janeiro 20, 2011

(...) em meio a tantos elogios e afetividade ela encontrou algo conhecido, mas aquele olhar lhe soava novo e causava uma outra pulsação em seu peito.
Êpa! Era o seu coração, ele estava querendo gritar; a menina abraçou a si mesma em uma tentativa de calar a pulsação de seu peito a fim de que ninguém escutasse. Ele se aproximava, puxou-lhe pela cintura e virou-lhe um beijo demorado na bochecha rosada.
-Prima, como você cresceu!
Ao mesmo tempo roubou-lhe todas as palavras. Helena só conseguiu devolver-lhe um sorriso, o seu melhor sorriso; o que todos diziam ser o mais bonito. Mas outras conversas meteram-se no meio daquela estranha e agradável situação.
Era uma garota observadora, já tinha facilidade em estudar alguém sem ser notada, sua timidez temporária contribuía bastante para que tivesse o máximo de discrição. Olhou cada detalhe do rosto do primo: parou nos olhos; ah os olhos, havia parte mais convidativa? Aquele verde consistente a chamava para descobrir um novo mundo, que a princípio, pareceu-lhe proibido.
Marcos havia mudado, ela não era a única que tinha crescido, mas ainda trazia as mesmas feições de um anjo.
A menina ainda não se sentia a vontade; apesar de estar na casa de sua família, não tinha conseguido se livrar da vergonha inicial que sempre a acompanhava em situações como aquela. E como era de costume alguém tinha de tomar o primeiro passo para que ela pudesse se soltar; não faltaram voluntários, ela se sentia como uma novidade. Logo Helena fora chamada para a reunião-de-primos; também não lhe faltaram perguntas respondidas a monossílabos e largos sorrisos; por algum motivo ela se sentia acanhada, era como se tivesse alguém mais forte que a intimidasse.
Estranhou-se. Reprimiu-se. Ela não era assim, sabia ser extrovertida quando queria; empinou mais ainda o nariz arrebitado, como se daquela forma pudesse mandar embora todo acanhamento restante. E com um tremendo esforço expulsou opiniões tiradas dos muitos romances lidos. Era aquilo que se resumia a sua vida- um romance piegas, mas ela gostava.
Sentiu um arrepio, diziam que quando isso acontecia um espírito se fazia presente no local; ela nunca tinha acreditado naquela história e acabava de tirar a prova dos nove. Era ele. Marcos tinha aquele olhar sorridente fixado na menina.
Helena desconsertou-se, perdeu o ritmo de suas palavras e passou a desconhecer o que falava. Sentiu-se tonta, como se tivesse bebido algumas doses da tequila do pai que ela sempre tivera vontade de experimentar; era exatamente isso, tomava seu primeiro porre.
Preocupou-se, 'será que ele havia notado sua repentina embriagues?'; torcia para que não. O relógio anunciou que faltavam três horas para o nascer do sol, tinha passado rápido demais, ela ficaria ali por mais três horas, mas precisava dormi. Até tentou levantar-se, mas suas pernas tinham perdido as forças e para seu desespero havia uma mão estirada a ela, mãos de anjo!
Meio que cambaleando consegui-se dirigir a sua cama. Deus, aquele perfume a deixou completamente bêbada; e todos sabem os embriagados logo pegam no sono.
Os raios de sol da manhã que chegara não tardaram em acorda-la. Era uma manhã de Dezembro diferente, havia uma alegria no ar; fazia um frio suportável, até gostoso e o mais incrível Helena acordara de bom humor. Sentiu dentro do peito uma vontade de cantar, o sorriso não lhe abandonava o rosto, até se sentia mais magra. Tinha de admitir, aquela viagem estava lhe fazendo bem!
Revirou toda sua mala procurando algo para vestir, mas a maldita indecisão não lhe deixava. Fez todas as combinações possíveis e acabou escolhendo seu melhor sorriso; não sabia por qual motivo, mas queria estar mais bonita que nunca. Perdeu o pouco da segurança que achou ter adquirido em cinco minutos, e ficou ali, nua, na frente dele. Toda vez que olhava em seus olhos ruborizava.
-O que vai fazer essa noite? - disse Marcos, dando-lhe mais um daqueles beijos demorados, de cinco segundos.
-Naad, nada- agora mais essa, a voz lhe faltando.
-Ah, tem uma festa hoje, de uma amiga, pode ser?
-Claro-
soprou ela com mais entusiasmo do que deveria.
Ele deu-lhe um sorriso como resposta, fazendo com que nela estourasse toda uma felicidade. Mas a menina tinha consciência-precisava frear. 'É só uma festa, ele é só meu primo!', censurou-se. Junto com a alegria repentina, cresceu em seu peito uma enorme ansiedade, uma certa apreensão; tinha medo de que a noite chegasse. E só para birrar com ela, logo o dia se foi trazendo a indecisão de volta. Ai, por que estava tão nervosa?
Decidiu-se por um vestido preto que lhe marcava o corpo, adorava vestidos; Helena era do tipo de garota que sabia o que tinha de melhor, e sempre lhe agradava mostrar as belas pernas torneadas que havia herdado do pai. Caprichou na maquiagem, que lhe mentia os 13 anos; os cabelos caiam em belas ondas por seus ombros; é, ela estava linda. Roubou elogios de toda a festa, mas sentia-se frustrada, era como se alguma expectativa tivesse brutalmente sido morta. A noite estava chegando ao final, hora de ir para casa.
Entraram no carro; Helena novamente estava tonta, dessa vez, pelo cheiro do álcool que invadiu o veículo; o que logo foi agravado por aquela presença. Como podia? Ele passou toda a noite distante e agora vinha com a sua cara de anjo expulso do paraíso sentar-se ao seu lado! Colocou a mão sobre a dela. Olharam-se profundamente por alguns demorados segundos, como se aquele encontro de olhos, de almas, fosse capaz de revelar todos os segredos que possuíam. E não era? Ela perdeu todo o fôlego, ele chegava mais perto. Sussurrou algo em seu ouvido que a fez rir, mas que se esqueceu no mesmo instante. Se aproximou mais, e mais. Os lábios se tocaram e trocaram suas almas através de um longo beijo.